A roupa de sereio
Bernardo se encantou com as
histórias do fundo do mar. No início, pedia: quero uma roupa de sereia... Repreendido
pelo uso do feminino, mas, resoluto com a vontade de ter uma cauda, passou a
implorar: - mamãe, quero uma roupa de sereio! Vovó, titia, quero uma roupa de
sereio!
E não adiantou a vovó fazer
asinha de borboleta, nem chapeuzinho de marinheiro. O menino insistente queria
mesmo era uma cauda. Uma cauda de sereio. Não havia maletinha de médico, nem
piscina de bolinha. Carreta, carrinho de controle remoto, moto elétrica,
escorregador. Tudo o menino tinha. Mas o que ele queria era ser sereio. E ele
pedia, repetia, insistia. A mamãe até procurou, mas não achou para comprar e
nem a vovó conseguiu costurar e nem colar. Com essa frustração, o menino teria
que se acostumar.
Acontece que um dia a titia
estava por lá e ouviu o menino novamente pedir pela tal cauda. Ela pensou,
pensou e resolveu tentar. Achou umas fitas coloridas, enrolou nas pernas do
menino, recortou uma cauda num papel brilhante e encaixou no cós da sua pequena
bermuda. O menino não se contentou. Ele disse, peremptório: - isso não é uma
cauda, titia! É um rabinho. Eu quero uma cauda de sereio!
E ele explicou porque a tia
parecia não entender. Não adiantou o truque. O menino sabia o que era uma cauda
de sereio. E ele queria uma. A tia então resolveu engenhar uma cauda de
verdade. Olhou na internet fantasias de sereia, procurou nas gavetas o que
tinha. Raciocinou. O menino exigente haveria de ter uma cauda de verdade.
Com um plástico grande em
mãos, papel brilhante e fitas coloridas, ela recortou, ajeitou aqui e ali,
ajustou os lados, apertou as pontas. E devagar, foi surgindo algo que realmente
se assemelhava a uma cauda. É, o menino se reconhecia um sereio! E para completar
a fantasia, ainda saiu coroa de rei do mar e bracelete mágico.
O menino não acreditou. Ele era
um sereio. Olhava por trás dos ombros e via um rabo de peixe. As pernas estavam
embaladas pelo plástico colorido. Ele não conseguia acreditar. E também mal podia
se mover. Com as pernas presas, os olhos brilhavam e o sorriso não poderia ser
maior. O sonho estava realizado.
Cinco minutos depois, imóvel e
sorridente, embalado com a cauda, o menino disse, com o cenho cerrado: quero
uma asa de borboleta. A tia não podia acreditar. Ela respondeu: - mas agora
você é um sereio. Pode brincar! E o menino: - Não quero mais ser sereio. Quero
uma asa de borboleta.
Ainda sem entender, a tia
cuidadosamente tirou a fantasia de sereio do menino, que dizia: - titia, quero
levar para a escolinha e para minha casa... eu posso? – Pode sim, disse a tia.
E o menino vigiou a tia dobrar e guardar e colocar na sacolinha a roupa de
sereio. – Pronto – disse ela. Agora a roupinha está guardada e pronta para você
levar para casa.
O menino pegou a sacola e não
largou mais. Sorridente, saiu cantarolando com a sacola na mão. Ele não queria
brincar, nem usar uma cauda de sereio. O que ele queria era saber que tinha.
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