sábado, 25 de novembro de 2017

A roupa de sereio

Bernardo se encantou com as histórias do fundo do mar. No início, pedia: quero uma roupa de sereia... Repreendido pelo uso do feminino, mas, resoluto com a vontade de ter uma cauda, passou a implorar: - mamãe, quero uma roupa de sereio! Vovó, titia, quero uma roupa de sereio!

E não adiantou a vovó fazer asinha de borboleta, nem chapeuzinho de marinheiro. O menino insistente queria mesmo era uma cauda. Uma cauda de sereio. Não havia maletinha de médico, nem piscina de bolinha. Carreta, carrinho de controle remoto, moto elétrica, escorregador. Tudo o menino tinha. Mas o que ele queria era ser sereio. E ele pedia, repetia, insistia. A mamãe até procurou, mas não achou para comprar e nem a vovó conseguiu costurar e nem colar. Com essa frustração, o menino teria que se acostumar.

Acontece que um dia a titia estava por lá e ouviu o menino novamente pedir pela tal cauda. Ela pensou, pensou e resolveu tentar. Achou umas fitas coloridas, enrolou nas pernas do menino, recortou uma cauda num papel brilhante e encaixou no cós da sua pequena bermuda. O menino não se contentou. Ele disse, peremptório: - isso não é uma cauda, titia! É um rabinho. Eu quero uma cauda de sereio!

E ele explicou porque a tia parecia não entender. Não adiantou o truque. O menino sabia o que era uma cauda de sereio. E ele queria uma. A tia então resolveu engenhar uma cauda de verdade. Olhou na internet fantasias de sereia, procurou nas gavetas o que tinha. Raciocinou. O menino exigente haveria de ter uma cauda de verdade.

Com um plástico grande em mãos, papel brilhante e fitas coloridas, ela recortou, ajeitou aqui e ali, ajustou os lados, apertou as pontas. E devagar, foi surgindo algo que realmente se assemelhava a uma cauda. É, o menino se reconhecia um sereio! E para completar a fantasia, ainda saiu coroa de rei do mar e bracelete mágico.

O menino não acreditou. Ele era um sereio. Olhava por trás dos ombros e via um rabo de peixe. As pernas estavam embaladas pelo plástico colorido. Ele não conseguia acreditar. E também mal podia se mover. Com as pernas presas, os olhos brilhavam e o sorriso não poderia ser maior. O sonho estava realizado.

Cinco minutos depois, imóvel e sorridente, embalado com a cauda, o menino disse, com o cenho cerrado: quero uma asa de borboleta. A tia não podia acreditar. Ela respondeu: - mas agora você é um sereio. Pode brincar! E o menino: - Não quero mais ser sereio. Quero uma asa de borboleta.

Ainda sem entender, a tia cuidadosamente tirou a fantasia de sereio do menino, que dizia: - titia, quero levar para a escolinha e para minha casa... eu posso? – Pode sim, disse a tia. E o menino vigiou a tia dobrar e guardar e colocar na sacolinha a roupa de sereio. – Pronto – disse ela. Agora a roupinha está guardada e pronta para você levar para casa.

O menino pegou a sacola e não largou mais. Sorridente, saiu cantarolando com a sacola na mão. Ele não queria brincar, nem usar uma cauda de sereio. O que ele queria era saber que tinha.



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