E Welligton, o atirador de Realengo, foi finalmente enterrado. Mas não pelos seus parentes e sim, pela própria Santa Casa. Sua família, além de não retirar o corpo do IML, nem compareceu ao enterro.
Esse episódio me lembrou a famosa obra de Sófocles, Antígona. Antígona é condenada à morte por sepultar Polinice, o irmão que tinha infringido as leis da cidade, provocando a tragédia em que ele e o próprio irmão se matam. Por isso, Creonte, o rei de Tebas, proibiu que Polinice fosse sepultado. Para ele, os criminosos não merecem clemência, nem mesmo o direito às honras fúnebres - os próprios deuses não se afligiriam pelo seu destino cruel.
Antígona, no entanto, desobedece a proibição de Creonte e oferece ao cadáver de seu irmão um sepultamente digno com as honras fúnebres, não permitindo que ele se deteriorasse a céu aberto, atacado por abutres e cães. Ela sabia do risco que corria e ainda assim, sacrificou-se por honrar o morto, honrando assim sua própria família. Mesmo concordando que o irmão praticara atos insanos, ela defendia que não poderia abandonar a prática fúnebre, a qual, para os tebanos, garantia a paz com os deuses e a honra da família.
E lá foi Antígona, correndo todos os riscos, sepultar o irmão. A cidade, ao contrário do tirano Creonte, concordava com Antígona e era contra a sua condenação. Também acreditavam que por mais cruel que tivesse sido Polinice, Antígona, como membro de sua família, tinha o direito e o dever moral e com os próprios deuses de sepultá-lo. Digamos que, anacronicamente falando, tratava-se de uma aplicação dos princípios dos Direitos Humanos: como ser humano, independentemente do que havia feito, Polinice tinha o direito de ser sepultado pelos seus. Foi pelo que lutou Antígona: "Ele não tem o direito de me coagir a abandonar os meus!" bradava ela, com relação a Creonte.
O que vimos, na história aterradora do assassino do Realengo foi bem isso: um assassino cruel, condenado por toda a sociedade pela atrocidade que cometeu. De seu lado, a imprensa alardeando e contando sem parar os dias em que o corpo se encontrava no IML (como se com isso, fizesse justiça contra aquele que, já morto, não podia de outra maneira pagar pela sua imensa maldade). Vimos a imprensa aguardar ansiosa a entrada de um parente, se desesperando ao querer noticiar onde ocorreria o enterro - se absurdamente seria ao lado das pobres pequenas vítimas no cemitério escolhido pelo próprio assassino na carta deixada ou em sei lá aonde. E a sociedade, como vítima e ao mesmo tempo algoz, se regozijzando com a punição funesta perpetrada ao assassino e seus parentes: a do não sepultamento, o máximo da humilhação e da desumanização que poderia se impôr a alguém. Não por obrigar em lei, como Creonte o fez, mas por cercear e, indiretamente ameaçar os familiares, coagindo-os e até impedindo-os de realizar o funeral.
Mas, contrariamente a Creonte, que permitira que o fedor do corpo em decomposição se espalhasse por toda a Tebas, a sociedade brasileira permitiu que a Santa Casa o enterrasse. Como corpo não reclamado. Se não houvesse enterro, correria-se o risco de o cheiro horrível chegar insuportavelmente a todas as narinas, lembrando a cada um de todos os terrores cometidos.
Enfim, termino esse texto com uma frase do coveiro, obrigado a sepultar o morto: "O sentimento foi de ódio. Acho que um cara desses não merecia ser enterrado".
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