sexta-feira, 22 de abril de 2011

Welligton e Polinice

E Welligton, o atirador de Realengo, foi finalmente enterrado. Mas não pelos seus parentes e sim, pela própria Santa Casa. Sua família, além de não retirar o corpo do IML, nem compareceu ao enterro.

Esse episódio me lembrou a famosa obra de Sófocles, Antígona. Antígona é condenada à morte por sepultar Polinice, o irmão que tinha infringido as leis da cidade, provocando a tragédia em que ele e o próprio irmão se matam. Por isso, Creonte, o rei de Tebas, proibiu que Polinice fosse sepultado. Para ele, os criminosos não merecem clemência, nem mesmo o direito às honras fúnebres - os próprios deuses não se afligiriam pelo seu destino cruel.

Antígona, no entanto, desobedece a proibição de Creonte e oferece ao cadáver de seu irmão um sepultamente digno com as honras fúnebres, não permitindo que ele se deteriorasse a céu aberto, atacado por abutres e cães. Ela sabia do risco que corria e ainda assim, sacrificou-se por honrar o morto, honrando assim sua própria família. Mesmo concordando que o irmão praticara atos insanos, ela defendia que não poderia abandonar a prática fúnebre, a qual, para os tebanos, garantia a paz com os deuses e a honra da família.

E lá foi Antígona, correndo todos os riscos, sepultar o irmão. A cidade, ao contrário do tirano Creonte, concordava com Antígona e era contra a sua condenação. Também acreditavam que por mais cruel que tivesse sido Polinice, Antígona, como membro de sua família, tinha o direito e o dever moral e com os próprios deuses de sepultá-lo. Digamos que, anacronicamente falando, tratava-se de uma aplicação dos princípios dos Direitos Humanos: como ser humano, independentemente do que havia feito, Polinice tinha o direito de ser sepultado pelos seus. Foi pelo que lutou Antígona: "Ele não tem o direito de me coagir a abandonar os meus!" bradava ela, com relação a Creonte.

O que vimos, na história aterradora do assassino do Realengo foi bem isso: um assassino cruel, condenado por toda a sociedade pela atrocidade que cometeu. De seu lado, a imprensa alardeando e contando sem parar os dias em que o corpo se encontrava no IML (como se com isso, fizesse justiça contra aquele que, já morto, não podia de outra maneira pagar pela sua imensa maldade). Vimos a imprensa aguardar ansiosa a entrada de um parente, se desesperando ao querer noticiar onde ocorreria o enterro - se absurdamente seria ao lado das pobres pequenas vítimas no cemitério escolhido pelo próprio assassino na carta deixada ou em sei lá aonde. E a sociedade, como vítima e ao mesmo tempo algoz, se regozijzando com a punição funesta perpetrada ao assassino e seus parentes: a do não sepultamento, o máximo da humilhação e da desumanização que poderia se impôr a alguém. Não por obrigar em lei, como Creonte o fez, mas por cercear e, indiretamente ameaçar os familiares, coagindo-os e até impedindo-os de realizar o funeral.

Mas, contrariamente a Creonte, que permitira que o fedor do corpo em decomposição se espalhasse por toda a Tebas, a sociedade brasileira permitiu que a Santa Casa o enterrasse. Como corpo não reclamado. Se não houvesse enterro, correria-se o risco de o cheiro horrível chegar insuportavelmente a todas as narinas, lembrando a cada um de todos os terrores cometidos.

Enfim, termino esse texto com uma frase do coveiro, obrigado a sepultar o morto: "O sentimento foi de ódio. Acho que um cara desses não merecia ser enterrado".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

os caminhos da deusa

Desde que a deusa me pegou pelas mãos, tudo mudou.

Ela me apresentou três caminhos: um, o caminho dos comuns; outro, o caminho dos cegos e o terceiro, o daqueles que queriam ver... Um deles era interdito, não deveria ser seguido, era o que dizia a deusa.

E a deusa me levou... em sua carruagem encantada, embarquei nessa viagem alucinadamente racional, rumo ao mais longínquo dos mundos, rumo ao mais íntimo dos mundos.

Na sua carruagem, visitei diversos mundos, onde encontrei Ensaios, Discursos, Meditações, Críticas, Analíticas, Apologias, Ideias, Fragmentos, Pensamentos, Confissões e Tratados.

Vi Deus se fazer e desfazer, senti a liberdade e a vi indo embora, me perdi entre a moral e a utilidade. Na busca inesgotável por esclarecimento, encontrei poetas e mesmo os expulsei das cidades, vi justos morrerem, fundei minha verdade em triângulos e teoremas, descobri a força do inconsciente e percebi que todas as coisas possuem vontade. Amei e odiei o conhecimento e tentei em vão compreender a vastidão que se condensa na palavra 'ser'. Amei a arte como algo que apenas se sente, situei o ser na história e acreditei firmemente na progressão das consciências. Vi o homem saindo do estado de natureza, perdendo assim sua pureza. Observei os cientistas querendo imprimir sentido ao caos, mas sem perceber que o verdadeiro caos está aqui dentro. Desacreditei nos meus sentidos mais primários e percebi que o que causa felicidade é a carência, o sofrimento. Entendi de que maneiras os anjos existem, que a mediania é o lugar dos justos e quase desisti quando percebi que o mundo que sinto com todo meu corpo pode não existir.

Nessa viagem quase entorpecida pela sophia, rumo a um télos tão ambicioso, na busca de desvendar o dasein através do Aufklärung, coloquei-me em epoché.

E minha vida nunca mais foi a mesma. As mãos da deusa conduziram-me a mim própria e hoje tento Conhecer-me a mim mesma...

Quanto aos caminhos... não, a deusa ainda não me contou qual era o interdito.

terça-feira, 29 de março de 2011

Mulheres pós-modernas

Um grupo de amigas por volta dos 30 anos. Todas estudadas, inteligentes, profissionais.

Cena 1
Uma delas conta:
- Comprei um Porshe.
As demais:
- Ahn.

Cena 2
- Desenvolvi uma nova teoria.
- Legal...

Cena 3
- Escrevi um livro!
- Legal...

Cena 4
- Aprendi a falar japonês.
- Bacana.

Cena 5
- A empresa que dirijo chegou a vinte países.
- Sei...

Cena 6
- Consegui demonstrar a Teoria dos Números Primos.
- ...

Cena7
- Finalmente me tornei uma astronauta!
- Sério?

Cena 8
- Já assumi meu posto na Embaixada.
- Nossa!

Cena 9
- Fui indicada ao Oscar.
- Maneiro...

Cena10
- Ganhei o Prêmio Nobel!
- É mesmo?

Cena11
- Eu e minha equipe descobrimos a cura do câncer!
- Que bom!

Cena 12
- Vou me casar!
- Como? Que dia? Quando? Com quem? Aonde? Conta!!!!

A cozinha e o cubo mágico

Chego na cozinha. Tudo está uma bagunça. Copos, talheres e panelas sujos, o lixo transbordando, resto de comida nos pratos, fogão ensopado de gordura, guardanapos, cascas de frutas, garrafa de água vazia...Olho desolada para o cenário e me desanimo com aquilo.

Sobre minha escrivaninha, um cubo mágico. Ontem me detive por horas tentando resolvê-lo colocando-o em ordem, mas não consegui. Curiosa, busquei na internet a solução e, no site de buscas, vários resultados com complexas respostas. Da lógica que ali ensinava, eu já havia me dado conta, mas não consegui realizar. A parte mais complicada, no entanto, o como fazer, tinha uma complexa explicação. Tão complexa quanto o cubo. Miro o cubo, até atrevo a pegá-lo, mas sinto um certo enjôo e volto à cozinha.

Sobre a pia, a esponja e o detergente. Água na torneira. Tarefa trabalhosa, porém, não difícil. Sei o que preciso fazer para deixar a cozinha em ordem e sei que preciso apenas começar para resolver tudo.

Já o cubo está lá sobre a escrivaninha. Mover as peças aleatoriamente não adianta. Não adianta também saber que devo seguir as faces das arestas. Não adianta porque não consigo mover as arestas sem tirar de ordem o que já havia colocado. Não, eu não entendi completamente o mecanismo. Eu não sei como fazer. Eu sei o resultado esperado e o desejo. Eu entendo as regras. Eu sei o que devo fazer, mas não consigo realizar.

Acho que muitas coisas em nossa vida são como o cubo mágico. Estão lá, a espera de uma solução; atraem o nosso desejo e guardam em si muito de nossa realização, mas não sabemos como fazer.

A cozinha... Sim, fácil de ordenar, mas não me interesso pela cozinha.