sábado, 25 de novembro de 2017

Confins sem horizontes


Nos confins, sem horizontes
onde a terra consome seu umbigo
tudo é coberto pelos montes
mas maria te protege, ungido.

nas bocas, vazio
nas almas, o oco
nas igrejas, o pio
nas estantes, o santo barroco

silêncio, silêncio
as palavras são más
nada deve ser dito
desejamos a paz.

nos confins sem horizontes
que te deram à luz
a terra repele teus pés
para bem longe da cruz.
Geralda

Era uma vez uma menina que amava subir nas árvores e brincar na natureza. Essa menina simples que andava descalça e comia as frutas no pé andava muito para ir à Escola – quase 10 km. O ano era 1968 e os ares da Ditadura não alteravam a tranquilidade do pequeno povoado de Confins. Ali, plantava-se para subsistência e queimava-se a cal em fornos de pedra. Ali só havia uma Escola primária. Os que se aventuravam a entrar no Ginásio tinham que pagar pela passagem numa velha Kombi ou enfrentar a dura caminhada que pior se fazia quando os sapatos Vernon queimavam os pés com a borracha dura de que eram feitos ou quando nem sapato se tinha. Era o caso da menina da nossa história, Geralda. Nome que recebeu da mãe no aperto do parto, tendo ela recorrido com fé e desespero ao Santo de sua devoção – São Geraldo.

Mas a caminhada em uma trilha de estrada de chão, rodeada de mato, só viria após um desafio - a prova de admissão. Naqueles tempos era assim: ao terminar a quarta série, era preciso fazer uma prova, que atestava o conhecimento adquirido nos anos anteriores, autorizando a matrícula no Ginásio. E Geralda não estava disposta a enfrentar a dura caminhada para a Escola. Dez quilômetros eram demais para aprender a tabuada. Dez quilômetros eram sacrificantes demais para se aprender o idioma de um país que nunca iria visitar. A roupa feita de saco de mantimento e os sapatos de borracha queimavam e isso para que? A natureza ainda estava lá, pronta a ser explorada, experimentada, provada e era isso que ela queria. Assim, Geralda deixou a Escola e foi se misturar à natureza, indo trabalhar numa plantação de eucaliptos. Assim, poderia comprar chita para fazer um vestido novo e comprar miudezas em Curvelo, na festa do Santo que deu seu nome, São Geraldo. Mas, os eucaliptos eram espinhosos demais e a menina não suportou a aridez da terra e do trabalho braçal. Sentiu saudades da Escola. A caminhada não parecia mais tão temerosa. E Geralda resolveu enfrentar o desafio do exame de admissão, mas não sem antes estudar, ler e reler os livros, passar a tabuada e treinar os problemas e as equações. E foi assim que Geralda escolheu o seu destino. Ela caminharia, teria os livros de volta e deles nunca mais se afastaria.

E lá se foi Geralda, uma das poucas adolescentes que encarou a caminhada. Junto dos irmãos e poucos vizinhos, ia ela, única menina, a enfrentar a dura jornada, feita de subidas e descidas íngremes, vendo a Kombi por eles passar, até o distante ponto de ônibus que levava ao Colégio Bento Gonçalves em Matozinhos. Lá, ainda cansada pela caminhada, se lembrava das árvores, frutos e sombras que a esperavam. Pensava na água que se acumulava no campo quando chovia, formando a mais deliciosa piscina natural. E na lua que iluminava a ciranda e todas as outras brincadeiras de roda. Lutava com esses tantos desejos que teimavam em levar sua atenção; tentava se concentrar nas lições. Fazia as tarefas. Treinava o francês. No intervalo, enquanto os colegas compravam sanduíches e faziam algazarra na cantina, Geralda pegava seus livros emprestados para copiar o dever de casa. Ela não tinha livros. Não podia comprá-los. Ela repetia mentalmente a tabuada. Não podia errar quando fazia contas na Venda do pai, nem errar no troco do pastel, que vendia junto com a mãe nos jogos de futebol de domingo. Se errasse, o pai, exímio tanto nas contas quanto na vara, não a pouparia da surra. Apanhava porque o pai não aceitava um filho burro, e exclamava, indignado: - você estudou atrás da Escola? Paradoxalmente, o pai que em nada colaborava para os estudos dos filhos, cobrava o desempenho, principalmente em matemática e usava o próprio exemplo – ele tinha tirado todas as notas 10 – de como ser um bom aluno. A menina não tinha ideia de como isso marcaria toda a sua vida e daria o norte e o horizonte da sua vida.

O Ginásio trazia dificuldades, além da extenuante caminhada: os materiais que os alunos tinham que adquirir e a passagem que tinham que pagar, do ponto de ônibus, que passava na estrada, até a Escola, em Matozinhos. Para dar conta dessas despesas, a menina tinha que trabalhar duro. E foi o que ela fez. Além da venda, seu pai tinha um açougue e era dele que Geralda comprava o bucho de boi, que cuidadosamente limpava com laranjinha capeta e vendia, pronto para cozinhar, em sua bicicleta pelas ruas da cidade. Não era fácil prosseguir nos estudos, mas Geralda, caminhava e caminhava, ia, não desistia. Com o dinheiro do bucho, pagava a os materiais e a passagem de ônibus. Não sobrava nem para os livros, quanto mais para os vestidos de chita. Não podia ir ao cinema, e até as compras da romaria em Curvelo e Lagoa Santa eram, para ela, apenas desejos.

No segundo grau, cursado no Colégio Imaculada Conceição, em Pedro Leopoldo, já começou a trabalhar como professora. Os dias eram corridos, mas o salário era bem-vindo e a menina seguia a vocação: ensinar. Assim, entrava como professora na Escola Estadual São José em Confins, de onde só sairia 30 anos depois, aposentada. Sua primeira experiência como professora foi no antigo Mobral, hoje, Ensino de Jovens e Adultos, curso em que alfabetizava e ensinava os senhores e senhoras, muitos já avós, a escreverem seu próprio nome, somar e subtrair. Com eles, tinha a paciência de uma filha. E fez bonitas amizades.

O amor pela natureza e a exigência das contas já revelavam o que trilharia como profissão: Licenciatura em Ciências. A faculdade requeria o pagamento da mensalidade, que era quitada com o salário de professora. Novamente, nada restava, além da mensalidade e dos livros. Nem para a romaria, nem para o cabelereiro, nem para as entradas dos bailes. Mas os livros eram suficientes para aprender e Geralda, agora, brincando de natureza com os livros, finalmente se formou. Tornou-se professora de Ciências e Matemática. E também Pós-Graduada em Ciência por investigação, mas esse título que conquistado anos mais tarde.

Foi professora na FEBEM e na Escola Estadual São José, em Confins, deu aulas para crianças, adolescentes e adultos, alfabetizando alunos de todas as idades. Ensinou tabuada para gerações a fio, legando a todos o que tomara do pai - a cobrança pelo rigor. Ali, a experiência mais marcante foi ser professora de uma turma de terceira série. A turma era composta por alunos revoltados, discriminados e atrasados, reunidos numa turma para a qual ninguém queria lecionar. Os alunos não conseguiam fazer contas, mal sabiam ler e eram desafiados pela outra turma de terceira série da Escola, essa sim, amada pelos professores, a uma competição de tabuada. Eles não podiam aceitar e assumiam ainda mais a triste imagem que todos faziam sobre eles – a de uma turma de burros e indolentes. A situação era desoladora quando Geralda assumiu a regência da turma, e, juntos, com um árduo trabalho e muita dedicação, a professora e os alunos conseguiram superar o preconceito. Os alunos aprenderam muito. A professora também. E uma linda amizade se formou. Instruídos pela professora, lá foram os alunos, orgulhosos de agora saberem a tabuada de trás para frente, desafiar a turma oponente, que se amedrontou diante daqueles alunos que tinham redescoberto a alegria em aprender.

Além da Escola Estadual São José, onde se aposentou no primeiro cargo, ensinou nos colégios Tiradentes, Nilo Maurício e Cecília Dolabela em Lagoa Santa e na Escola de Tavares. Hoje, ensina os filhos dos seus primeiros alunos na Escola Municipal Afonso José da Silva, também em Confins. O amor pela educação sempre se manifestou no dever de transmitir o saber e na alegria em presenciar o aprendizado de todos os alunos, especialmente aqueles com mais limitações, como crianças surdas-mudas, hiperativas e com dificuldade de aprendizagem. Nunca ignorou um aluno, por mais dificuldades que tivesse e jamais se recusou a ensinar, mesmo que para isso, tivesse que usar o tempo livre. Austera, construiu sua carreira com quadro, giz, lápis e papel. Além do seu amor, não precisa de nada mais para ensinar.

A roupa de sereio

Bernardo se encantou com as histórias do fundo do mar. No início, pedia: quero uma roupa de sereia... Repreendido pelo uso do feminino, mas, resoluto com a vontade de ter uma cauda, passou a implorar: - mamãe, quero uma roupa de sereio! Vovó, titia, quero uma roupa de sereio!

E não adiantou a vovó fazer asinha de borboleta, nem chapeuzinho de marinheiro. O menino insistente queria mesmo era uma cauda. Uma cauda de sereio. Não havia maletinha de médico, nem piscina de bolinha. Carreta, carrinho de controle remoto, moto elétrica, escorregador. Tudo o menino tinha. Mas o que ele queria era ser sereio. E ele pedia, repetia, insistia. A mamãe até procurou, mas não achou para comprar e nem a vovó conseguiu costurar e nem colar. Com essa frustração, o menino teria que se acostumar.

Acontece que um dia a titia estava por lá e ouviu o menino novamente pedir pela tal cauda. Ela pensou, pensou e resolveu tentar. Achou umas fitas coloridas, enrolou nas pernas do menino, recortou uma cauda num papel brilhante e encaixou no cós da sua pequena bermuda. O menino não se contentou. Ele disse, peremptório: - isso não é uma cauda, titia! É um rabinho. Eu quero uma cauda de sereio!

E ele explicou porque a tia parecia não entender. Não adiantou o truque. O menino sabia o que era uma cauda de sereio. E ele queria uma. A tia então resolveu engenhar uma cauda de verdade. Olhou na internet fantasias de sereia, procurou nas gavetas o que tinha. Raciocinou. O menino exigente haveria de ter uma cauda de verdade.

Com um plástico grande em mãos, papel brilhante e fitas coloridas, ela recortou, ajeitou aqui e ali, ajustou os lados, apertou as pontas. E devagar, foi surgindo algo que realmente se assemelhava a uma cauda. É, o menino se reconhecia um sereio! E para completar a fantasia, ainda saiu coroa de rei do mar e bracelete mágico.

O menino não acreditou. Ele era um sereio. Olhava por trás dos ombros e via um rabo de peixe. As pernas estavam embaladas pelo plástico colorido. Ele não conseguia acreditar. E também mal podia se mover. Com as pernas presas, os olhos brilhavam e o sorriso não poderia ser maior. O sonho estava realizado.

Cinco minutos depois, imóvel e sorridente, embalado com a cauda, o menino disse, com o cenho cerrado: quero uma asa de borboleta. A tia não podia acreditar. Ela respondeu: - mas agora você é um sereio. Pode brincar! E o menino: - Não quero mais ser sereio. Quero uma asa de borboleta.

Ainda sem entender, a tia cuidadosamente tirou a fantasia de sereio do menino, que dizia: - titia, quero levar para a escolinha e para minha casa... eu posso? – Pode sim, disse a tia. E o menino vigiou a tia dobrar e guardar e colocar na sacolinha a roupa de sereio. – Pronto – disse ela. Agora a roupinha está guardada e pronta para você levar para casa.

O menino pegou a sacola e não largou mais. Sorridente, saiu cantarolando com a sacola na mão. Ele não queria brincar, nem usar uma cauda de sereio. O que ele queria era saber que tinha.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Welligton e Polinice

E Welligton, o atirador de Realengo, foi finalmente enterrado. Mas não pelos seus parentes e sim, pela própria Santa Casa. Sua família, além de não retirar o corpo do IML, nem compareceu ao enterro.

Esse episódio me lembrou a famosa obra de Sófocles, Antígona. Antígona é condenada à morte por sepultar Polinice, o irmão que tinha infringido as leis da cidade, provocando a tragédia em que ele e o próprio irmão se matam. Por isso, Creonte, o rei de Tebas, proibiu que Polinice fosse sepultado. Para ele, os criminosos não merecem clemência, nem mesmo o direito às honras fúnebres - os próprios deuses não se afligiriam pelo seu destino cruel.

Antígona, no entanto, desobedece a proibição de Creonte e oferece ao cadáver de seu irmão um sepultamente digno com as honras fúnebres, não permitindo que ele se deteriorasse a céu aberto, atacado por abutres e cães. Ela sabia do risco que corria e ainda assim, sacrificou-se por honrar o morto, honrando assim sua própria família. Mesmo concordando que o irmão praticara atos insanos, ela defendia que não poderia abandonar a prática fúnebre, a qual, para os tebanos, garantia a paz com os deuses e a honra da família.

E lá foi Antígona, correndo todos os riscos, sepultar o irmão. A cidade, ao contrário do tirano Creonte, concordava com Antígona e era contra a sua condenação. Também acreditavam que por mais cruel que tivesse sido Polinice, Antígona, como membro de sua família, tinha o direito e o dever moral e com os próprios deuses de sepultá-lo. Digamos que, anacronicamente falando, tratava-se de uma aplicação dos princípios dos Direitos Humanos: como ser humano, independentemente do que havia feito, Polinice tinha o direito de ser sepultado pelos seus. Foi pelo que lutou Antígona: "Ele não tem o direito de me coagir a abandonar os meus!" bradava ela, com relação a Creonte.

O que vimos, na história aterradora do assassino do Realengo foi bem isso: um assassino cruel, condenado por toda a sociedade pela atrocidade que cometeu. De seu lado, a imprensa alardeando e contando sem parar os dias em que o corpo se encontrava no IML (como se com isso, fizesse justiça contra aquele que, já morto, não podia de outra maneira pagar pela sua imensa maldade). Vimos a imprensa aguardar ansiosa a entrada de um parente, se desesperando ao querer noticiar onde ocorreria o enterro - se absurdamente seria ao lado das pobres pequenas vítimas no cemitério escolhido pelo próprio assassino na carta deixada ou em sei lá aonde. E a sociedade, como vítima e ao mesmo tempo algoz, se regozijzando com a punição funesta perpetrada ao assassino e seus parentes: a do não sepultamento, o máximo da humilhação e da desumanização que poderia se impôr a alguém. Não por obrigar em lei, como Creonte o fez, mas por cercear e, indiretamente ameaçar os familiares, coagindo-os e até impedindo-os de realizar o funeral.

Mas, contrariamente a Creonte, que permitira que o fedor do corpo em decomposição se espalhasse por toda a Tebas, a sociedade brasileira permitiu que a Santa Casa o enterrasse. Como corpo não reclamado. Se não houvesse enterro, correria-se o risco de o cheiro horrível chegar insuportavelmente a todas as narinas, lembrando a cada um de todos os terrores cometidos.

Enfim, termino esse texto com uma frase do coveiro, obrigado a sepultar o morto: "O sentimento foi de ódio. Acho que um cara desses não merecia ser enterrado".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

os caminhos da deusa

Desde que a deusa me pegou pelas mãos, tudo mudou.

Ela me apresentou três caminhos: um, o caminho dos comuns; outro, o caminho dos cegos e o terceiro, o daqueles que queriam ver... Um deles era interdito, não deveria ser seguido, era o que dizia a deusa.

E a deusa me levou... em sua carruagem encantada, embarquei nessa viagem alucinadamente racional, rumo ao mais longínquo dos mundos, rumo ao mais íntimo dos mundos.

Na sua carruagem, visitei diversos mundos, onde encontrei Ensaios, Discursos, Meditações, Críticas, Analíticas, Apologias, Ideias, Fragmentos, Pensamentos, Confissões e Tratados.

Vi Deus se fazer e desfazer, senti a liberdade e a vi indo embora, me perdi entre a moral e a utilidade. Na busca inesgotável por esclarecimento, encontrei poetas e mesmo os expulsei das cidades, vi justos morrerem, fundei minha verdade em triângulos e teoremas, descobri a força do inconsciente e percebi que todas as coisas possuem vontade. Amei e odiei o conhecimento e tentei em vão compreender a vastidão que se condensa na palavra 'ser'. Amei a arte como algo que apenas se sente, situei o ser na história e acreditei firmemente na progressão das consciências. Vi o homem saindo do estado de natureza, perdendo assim sua pureza. Observei os cientistas querendo imprimir sentido ao caos, mas sem perceber que o verdadeiro caos está aqui dentro. Desacreditei nos meus sentidos mais primários e percebi que o que causa felicidade é a carência, o sofrimento. Entendi de que maneiras os anjos existem, que a mediania é o lugar dos justos e quase desisti quando percebi que o mundo que sinto com todo meu corpo pode não existir.

Nessa viagem quase entorpecida pela sophia, rumo a um télos tão ambicioso, na busca de desvendar o dasein através do Aufklärung, coloquei-me em epoché.

E minha vida nunca mais foi a mesma. As mãos da deusa conduziram-me a mim própria e hoje tento Conhecer-me a mim mesma...

Quanto aos caminhos... não, a deusa ainda não me contou qual era o interdito.

terça-feira, 29 de março de 2011

Mulheres pós-modernas

Um grupo de amigas por volta dos 30 anos. Todas estudadas, inteligentes, profissionais.

Cena 1
Uma delas conta:
- Comprei um Porshe.
As demais:
- Ahn.

Cena 2
- Desenvolvi uma nova teoria.
- Legal...

Cena 3
- Escrevi um livro!
- Legal...

Cena 4
- Aprendi a falar japonês.
- Bacana.

Cena 5
- A empresa que dirijo chegou a vinte países.
- Sei...

Cena 6
- Consegui demonstrar a Teoria dos Números Primos.
- ...

Cena7
- Finalmente me tornei uma astronauta!
- Sério?

Cena 8
- Já assumi meu posto na Embaixada.
- Nossa!

Cena 9
- Fui indicada ao Oscar.
- Maneiro...

Cena10
- Ganhei o Prêmio Nobel!
- É mesmo?

Cena11
- Eu e minha equipe descobrimos a cura do câncer!
- Que bom!

Cena 12
- Vou me casar!
- Como? Que dia? Quando? Com quem? Aonde? Conta!!!!

A cozinha e o cubo mágico

Chego na cozinha. Tudo está uma bagunça. Copos, talheres e panelas sujos, o lixo transbordando, resto de comida nos pratos, fogão ensopado de gordura, guardanapos, cascas de frutas, garrafa de água vazia...Olho desolada para o cenário e me desanimo com aquilo.

Sobre minha escrivaninha, um cubo mágico. Ontem me detive por horas tentando resolvê-lo colocando-o em ordem, mas não consegui. Curiosa, busquei na internet a solução e, no site de buscas, vários resultados com complexas respostas. Da lógica que ali ensinava, eu já havia me dado conta, mas não consegui realizar. A parte mais complicada, no entanto, o como fazer, tinha uma complexa explicação. Tão complexa quanto o cubo. Miro o cubo, até atrevo a pegá-lo, mas sinto um certo enjôo e volto à cozinha.

Sobre a pia, a esponja e o detergente. Água na torneira. Tarefa trabalhosa, porém, não difícil. Sei o que preciso fazer para deixar a cozinha em ordem e sei que preciso apenas começar para resolver tudo.

Já o cubo está lá sobre a escrivaninha. Mover as peças aleatoriamente não adianta. Não adianta também saber que devo seguir as faces das arestas. Não adianta porque não consigo mover as arestas sem tirar de ordem o que já havia colocado. Não, eu não entendi completamente o mecanismo. Eu não sei como fazer. Eu sei o resultado esperado e o desejo. Eu entendo as regras. Eu sei o que devo fazer, mas não consigo realizar.

Acho que muitas coisas em nossa vida são como o cubo mágico. Estão lá, a espera de uma solução; atraem o nosso desejo e guardam em si muito de nossa realização, mas não sabemos como fazer.

A cozinha... Sim, fácil de ordenar, mas não me interesso pela cozinha.