Geralda
Era uma vez uma menina que amava subir nas árvores e
brincar na natureza. Essa menina simples que andava descalça e comia as frutas
no pé andava muito para ir à Escola – quase 10 km. O ano era 1968 e os ares da
Ditadura não alteravam a tranquilidade do pequeno povoado de Confins. Ali,
plantava-se para subsistência e queimava-se a cal em fornos de pedra. Ali só
havia uma Escola primária. Os que se aventuravam a entrar no Ginásio tinham que
pagar pela passagem numa velha Kombi ou enfrentar a dura caminhada que pior se
fazia quando os sapatos Vernon queimavam os pés com a borracha dura de que eram
feitos ou quando nem sapato se tinha. Era o caso da menina da nossa história,
Geralda. Nome que recebeu da mãe no aperto do parto, tendo ela recorrido com fé
e desespero ao Santo de sua devoção – São Geraldo.
Mas a caminhada em uma trilha de estrada de chão,
rodeada de mato, só viria após um desafio - a prova de admissão. Naqueles
tempos era assim: ao terminar a quarta série, era preciso fazer uma prova, que
atestava o conhecimento adquirido nos anos anteriores, autorizando a matrícula
no Ginásio. E Geralda não estava disposta a enfrentar a dura caminhada para a
Escola. Dez quilômetros eram demais para aprender a tabuada. Dez quilômetros
eram sacrificantes demais para se aprender o idioma de um país que nunca iria
visitar. A roupa feita de saco de mantimento e os sapatos de borracha queimavam
e isso para que? A natureza ainda estava lá, pronta a ser explorada,
experimentada, provada e era isso que ela queria. Assim, Geralda deixou a
Escola e foi se misturar à natureza, indo trabalhar numa plantação de
eucaliptos. Assim, poderia comprar chita para fazer um vestido novo e comprar
miudezas em Curvelo, na festa do Santo que deu seu nome, São Geraldo. Mas, os
eucaliptos eram espinhosos demais e a menina não suportou a aridez da terra e
do trabalho braçal. Sentiu saudades da Escola. A caminhada não parecia mais tão
temerosa. E Geralda resolveu enfrentar o desafio do exame de admissão, mas não
sem antes estudar, ler e reler os livros, passar a tabuada e treinar os
problemas e as equações. E foi assim que Geralda escolheu o seu destino. Ela
caminharia, teria os livros de volta e deles nunca mais se afastaria.
E lá se foi Geralda, uma das poucas adolescentes que
encarou a caminhada. Junto dos irmãos e poucos vizinhos, ia ela, única menina,
a enfrentar a dura jornada, feita de subidas e descidas íngremes, vendo a Kombi
por eles passar, até o distante ponto de ônibus que levava ao Colégio Bento
Gonçalves em Matozinhos. Lá, ainda cansada pela caminhada, se lembrava das
árvores, frutos e sombras que a esperavam. Pensava na água que se acumulava no
campo quando chovia, formando a mais deliciosa piscina natural. E na lua que
iluminava a ciranda e todas as outras brincadeiras de roda. Lutava com esses
tantos desejos que teimavam em levar sua atenção; tentava se concentrar nas
lições. Fazia as tarefas. Treinava o francês. No intervalo, enquanto os colegas
compravam sanduíches e faziam algazarra na cantina, Geralda pegava seus livros
emprestados para copiar o dever de casa. Ela não tinha livros. Não podia
comprá-los. Ela repetia mentalmente a tabuada. Não podia errar quando fazia
contas na Venda do pai, nem errar no troco do pastel, que vendia junto com a
mãe nos jogos de futebol de domingo. Se errasse, o pai, exímio tanto nas contas
quanto na vara, não a pouparia da surra. Apanhava porque o pai não aceitava um
filho burro, e exclamava, indignado: - você estudou atrás da Escola? Paradoxalmente,
o pai que em nada colaborava para os estudos dos filhos, cobrava o desempenho,
principalmente em matemática e usava o próprio exemplo – ele tinha tirado todas
as notas 10 – de como ser um bom aluno. A menina não tinha ideia de como isso
marcaria toda a sua vida e daria o norte e o horizonte da sua vida.
O Ginásio trazia dificuldades, além da extenuante
caminhada: os materiais que os alunos tinham que adquirir e a passagem que
tinham que pagar, do ponto de ônibus, que passava na estrada, até a Escola, em
Matozinhos. Para dar conta dessas despesas, a menina tinha que trabalhar duro.
E foi o que ela fez. Além da venda, seu pai tinha um açougue e era dele que
Geralda comprava o bucho de boi, que cuidadosamente limpava com laranjinha
capeta e vendia, pronto para cozinhar, em sua bicicleta pelas ruas da cidade.
Não era fácil prosseguir nos estudos, mas Geralda, caminhava e caminhava, ia,
não desistia. Com o dinheiro do bucho, pagava a os materiais e a passagem de
ônibus. Não sobrava nem para os livros, quanto mais para os vestidos de chita. Não
podia ir ao cinema, e até as compras da romaria em Curvelo e Lagoa Santa eram,
para ela, apenas desejos.
No segundo grau, cursado no Colégio Imaculada
Conceição, em Pedro Leopoldo, já começou a trabalhar como professora. Os dias
eram corridos, mas o salário era bem-vindo e a menina seguia a vocação:
ensinar. Assim, entrava como professora na Escola Estadual São José em Confins,
de onde só sairia 30 anos depois, aposentada. Sua primeira experiência como
professora foi no antigo Mobral, hoje, Ensino de Jovens e Adultos, curso em que
alfabetizava e ensinava os senhores e senhoras, muitos já avós, a escreverem
seu próprio nome, somar e subtrair. Com eles, tinha a paciência de uma filha. E
fez bonitas amizades.
O amor pela natureza e a exigência das contas já
revelavam o que trilharia como profissão: Licenciatura em Ciências. A faculdade
requeria o pagamento da mensalidade, que era quitada com o salário de
professora. Novamente, nada restava, além da mensalidade e dos livros. Nem para
a romaria, nem para o cabelereiro, nem para as entradas dos bailes. Mas os
livros eram suficientes para aprender e Geralda, agora, brincando de natureza
com os livros, finalmente se formou. Tornou-se professora de Ciências e
Matemática. E também Pós-Graduada em Ciência por investigação, mas esse título
que conquistado anos mais tarde.
Foi professora na FEBEM e na Escola Estadual São José,
em Confins, deu aulas para crianças, adolescentes e adultos, alfabetizando
alunos de todas as idades. Ensinou tabuada para gerações a fio, legando a todos
o que tomara do pai - a cobrança pelo rigor. Ali, a experiência mais marcante
foi ser professora de uma turma de terceira série. A turma era composta por
alunos revoltados, discriminados e atrasados, reunidos numa turma para a qual
ninguém queria lecionar. Os alunos não conseguiam fazer contas, mal sabiam ler
e eram desafiados pela outra turma de terceira série da Escola, essa sim, amada
pelos professores, a uma competição de tabuada. Eles não podiam aceitar e
assumiam ainda mais a triste imagem que todos faziam sobre eles – a de uma
turma de burros e indolentes. A situação era desoladora quando Geralda assumiu
a regência da turma, e, juntos, com um árduo trabalho e muita dedicação, a
professora e os alunos conseguiram superar o preconceito. Os alunos aprenderam muito.
A professora também. E uma linda amizade se formou. Instruídos pela professora,
lá foram os alunos, orgulhosos de agora saberem a tabuada de trás para frente,
desafiar a turma oponente, que se amedrontou diante daqueles alunos que tinham redescoberto
a alegria em aprender.
Além da Escola Estadual São José, onde se aposentou no
primeiro cargo, ensinou nos colégios Tiradentes, Nilo Maurício e Cecília
Dolabela em Lagoa Santa e na Escola de Tavares. Hoje, ensina os filhos dos seus
primeiros alunos na Escola Municipal Afonso José da Silva, também em Confins. O
amor pela educação sempre se manifestou no dever de transmitir o saber e na
alegria em presenciar o aprendizado de todos os alunos, especialmente aqueles com
mais limitações, como crianças surdas-mudas, hiperativas e com dificuldade de
aprendizagem. Nunca ignorou um aluno, por mais dificuldades que tivesse e
jamais se recusou a ensinar, mesmo que para isso, tivesse que usar o tempo
livre. Austera, construiu sua carreira com quadro, giz, lápis e papel. Além do
seu amor, não precisa de nada mais para ensinar.